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João XV


Um

 ...a fim de que todos sejam um;
e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti,
também sejam eles em nós.
- João 17.21 -

Antes de iniciar sua dolorosa caminhada em direção à cruz, Jesus teve uma longa conversa com seus discípulos e depois levantou os olhos ao céu e disse as palavras do capítulo 17 do evangelho de João, conhecidas como a oração sacerdotal. O versículo transcrito acima são parte dela e tem servido como estímulo a um grande número de denominações para estimular práticas que expressem a unicidade da igreja em todo o mundo. Entretanto a abrangência dessa prece é muitíssimas vezes maior.

Ele orava a favor de seus discípulos e, a certa altura, observou: não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra. Expressou também o modelo dessa unidade: como és tu em mim e eu em ti. Os pais costumam desejar que seus filhos sejam unidos entre, mas os rogos de Jesus foram ainda mais profundos: sejam eles em nós.

A unicidade entre o Pai e o Filho, à qual são conclamados a se integrar os discípulos deste e os que viessem a crer por intermédio deles, está afirmada nos primeiros versículos do evangelho: o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. E o próprio Filho a confirmaria de diversas outras formas enquanto durou sua missão neste mundo, chegando a afirmá-la com todas as letras: Eu e o Pai somos um.

Entretanto, ao ouvirem essas palavras, novamente pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. Jesus perguntou-lhes por qual de suas obras o apedrejavam. Eles retrucaram que procediam daquela maneira não pelas suas obras, que até reconheciam como boas, mas pelo que ele dizia de si mesmo. Já que era assim, Jesus encerrou a conversa conclamando-os a crerem então nas obras, para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai.

O pedido de Jesus ao Pai, para que os crentes fossem um neles, visava o mesmo objetivo de sua missão: para que o mundo creia que tu me enviaste. E os homens em geral reagem hoje mais ou menos como aqueles judeus, quando as igrejas os convidam para comparecerem aos seus salões a fim de experimentarem as maravilhas da ação divina: quando não hostilizam ou debocham, nem chegam pelo menos a levar a sério. Mas quando algo realmente libertador acontece, o próprio mundo reconhece que, por trás, com certeza, está a mão de Deus, sem se importar muito com os protagonistas humanos.

                                                                                                                                      
Referências bíblicas:
João 1.1-3; 10.30-38; 15.1-6
14 maio 2015

João XIV


Que faremos para realizar as obras de Deus?

A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.
- João 6.29 -

Depois da multiplicação dos pães e dos peixes, quando os que atravessaram o lago atrás de Jesus o encontraram na outra margem, este os advertiu: Em verdade, em verdade vos digo, vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comeste dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna. Eles, então, perguntaram: Que faremos para realizar as obras de Deus?Ao que Jesus responde: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.

Em grego, para dizer Trabalhai, Jesus empregou o verbo ergomai. Ao indagar sobre as obras de Deus, seus interlocutores usaram o termo erga, substantivo do mesmo radical, no plural. Na resposta, o mestre se referiu a ergon , a obra, o mesmo substantivo, no singular. Não se referia ao trabalho que aquelas pessoas certamente realizavam para obter o pão de cada dia, como pescar, por exemplo; mas sim ao esforço que tinham feito para encontrá-lo do outro lado do lago, em busca de nada mais que a comida que perece, de acordo com sua percepção.

Com esse esclarecimento, percebe-se que os ouvintes logo entenderam que trabalhar pela comida que subsiste para a vida eterna significava realizar as obras de Deus, e interessaram-se em saber como fazer isso, pensando certamente que incluiria uma série de prescrições. Jesus surpreendeu ao responder que era uma só a obra que proveria o alimento que subsiste para a vida eterna: crer no enviado de Deus; no caso, ele próprio, de quem a verdadeira comida consistia exatamente em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.Como vimos na lição anterior, seria mesmo até inútil relacionar, ainda que apenas alguns exemplos, do que as obras de Deus são capazes de proporcionar, pois sem mim nada podeis fazer. Por outro lado, quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior, fluirão rios de água viva.

Jesus explica isso direitinho na sua palavra sobre a videira: Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. O próprio Pai, que é o agricultor, toma a iniciativa de limpar os ramos que dão frutos, pela sua palavra, para que produzam mais ainda. Entretanto, pode acontecer de um ramo permanecer na videira e não dar frutos, porque deixou de ouvir a palavra; neste caso, ele mesmo o corta, e secará.

                                                                                                                                      
Referências bíblicas:
João 15.1-6
07 maio 2015

João XIII


A vida

O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita;
as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.
- João 6.63 -

Até há pouco dizia-se que a vida de uma pessoa iniciava no momento de seu nascimento, quando sua mãe lhe dava à luz; e que acabava quando expirava, dava o último suspiro. Hoje já se considera o embrião como um ser humano, a fecundação já dá início a uma nova vida; e o último suspiro pode ser adiado artificialmente até que ocorra a morte cerebral, quando termina de fato.

Não é sobre essa vida que João escreve, dos que nascem do sangue, da vontade da carne ou do homem, mas sobre a vida de quem nasce de novo, do alto, da vontade de Deus. Pois, o que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito, sendo que a carne para nada aproveita, o espírito é o que vivifica.

E o verdadeiro propósito da vinda do Verbo foi introduzir neste mundo a vida que nele estava desde que todas as coisas foram feitas, porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem em seu nome. E, em várias oportunidades, Jesus reafirma que os que têm a vida eterna são aqueles que recebem sua palavra, crêem nele e dele se alimentam.

A idéia da vida eterna tem dado asas à imaginação dos homens, e cada qual a concebe como melhor lhe convém. O que todos devem concordar é que, como o nome está dizendo, ela é eterna. De fato: Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente.Mas, o que o evangelho de João especificamente nos informa sobre ela? Na preleção sobre o bom pastor, Jesus usa um outro adjetivo, em lugar de eterna:eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Abundância de quê? De frutos: quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto. Que fruto? Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva, em conformidade com que havia dito à samaritana: a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Entretanto, os homens costumam imaginar que essa vida seria um prêmio para os bem comportados. E as palavras de João não autorizam essa visão. Em primeiro lugar, porque Jesus não veio julgar o mundo. A morte não é uma sentença, mas o fim que aguarda todo que é nascido da carne, que para nada aproveita. Desta morte não escaparam nem os hebreus que foram milagrosamente agraciados com o maná no deserto, nem os que se alimentaram ou foram curados pelo poder de Jesus, inclusive Lázaro, uma vez ressuscitado por ele. Como dissemos acima, não é dessa vida que trata o evangelista, mas daquela que é dada gratuitamente pelo mestre aos que vêm a ele, independentemente de seus méritos. Se alguns não a recebem é porque a vida era a luz dos homens e ... eles amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo o que pratica o mal aborrece a luz e não se achega para a luz, a fim de não serem argüidas suas obras.

Na verdade, só os nascidos do espírito podem produzir algum fruto aproveitável, pois quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Não são as boas obras que habilitam para a vida eterna, mas é esta, recebida gratuitamente, que habilita para as boas obras, em abundância.


Referências bíblicas:
João 1.4, 12; 3.16-21; 4.14; 5.24; 6.63; 7.38; 10.10; 11.25-26; 15.5.
30 abril 2015


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